quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Livro. Chuva. Chá.

   Abre a porta e joga a chave em qualquer canto do sofá, joga o casaco pelo chão. Retira os sapatos úmidos e os deixa em qualquer canto. Nao imaginou que pegaria uma chuva no caminho do trabalho para casa, ela como sempre não havia se precavido, e ao menos levou um guarda chuva. No começo não deixou de reclamar, pensou consigo: Saco, logo agora que sai do trabalho, odeio esse tempo!
  No fundo sabia que estava mentindo para si própria, ela amava dias como aqueles, apenas queria aproveita-lo em casa. Logo começou a sentir uma sensação, sensação de frescor, as gotas desciam pelo seu rosto, trazendo consigo lembranças de um tempo bom. Tempo esse que independente de chuva ou sol, ela sabia aproveitar.
  Colocou uma água para fazer um chá, enquanto isso tratava de se enxugar. Naquelas alturas não seria nada vantajoso pegar uma gripe. Tinha muitas responsabilidades para cumprir e muitas contas ainda para pagar. Algumas desvantagens de não se morar com os pais, pensava ela. Se jogou na cama, deu um leve carinho e um beijo no gato, que reparava toda a movimentação da dona. Com um pijama velho, um daqueles de adolescência, aqueles que guardam lembranças das noites dormidas nas casas das amigas. Aquele que ela usava enquanto chorava na cama, só por causa de um carinha que pisou na bola com ela.
  A xícara de chá no criado mudo, o livro de seu escritor preferido, na verdade era o que ela mais tinha. Livros. Livros na sala, no quarto, na cozinha tinha o livro de receitas que sua mãe a havia presenteado no aniversario, com a desculpa de que seria útil. O qual ela já tentou usar, porem seus pratos não foram dos melhores. Começou a ler algumas folhas do livro, enquanto alternava com alguns goles de chá, e enquanto reparava na chuva la fora. Ela reparava carinhosamente naquelas gotas escorrendo na vidraça.
  Se cansou de ficar ali tentando ler, sua mente estava um pouco longe. Resolveu colocar um som, ficou em duvida entre os CD`s do The Smiths, Of Monsters and Men, Queen, The Beatles, Florence an The Machine. Escolheu The Smiths, nada que a voz carregada de nostalgia do Morrissey.
Se espreguiçou na cama, virou para a janela, sua alma gritava por algo. O chá no criado mudo já havia esfriado, o livro jogado pela cama, o gato tentava se aconchegar em meio as cobertas e o corpo quente da dona, acabou desistindo, sua dona estava agitada demais para deixa-lo dormir.
  Ela ficou ali imaginando sua vida, revivendo seu passado, ficou ali tentando se encorajar, buscando algo. Algo que ela sabia que existia dentro de si. Aquela lagrima insistia em cair, aquela saudade que batia, aquela dor. Aquela nostalgia. Pois nada melhor que um livro, chuva e cha para trazer tudo isso a tona. Ah, sem esquecer do CD do The Smiths que tocava.  Ah esses dias de chuva, pensava ela.

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